Eu estou cansado de falhar


Vocês já imaginaram como seria o mundo se eu fosse bem sucedido como game designer? Ser "bem sucedido" é bastante subjetivo. Quando eu penso em sucesso como game designer, eu imagino quais pessoas são minhas referências profissionalmente. Eu me enxergo nelas e isso é o que me move. Vou listar algumas pessoas das quais são responsáveis indiretamente pela minha escolha profissional.
  • Shigeru Miyamoto. Um premiado game designer que atualmente está na Nintendo e responsável pelo maioria dos jogos dos que eu mais amo jogar. Mário, Donkey Kong, Star Fox, F-Zero e The Legend of Zelda. Eu cresci jogando estes jogos e sempre imaginei como deve ser legal criar jogos assim. Quando eu comprava as revistas especializadas no mundo da Nintendo eu ficava apaixonado pelas entrevistas que o Shigeru participava e pensei: eu quero fazer jogos. Eu amo isso. 
  • Gary Gygax. Considerado "o pai" dos jogos de RPG. Praticamente construiu uma das maiores comunidades de jogos analógicos de todos os tempos, a de Dungeons & Dragons. Além de escrever histórias absurdamente cativantes das quais considero excelentes e suspeito dizer, atemporais. São ótimas "brincadeiras" para passar um bom final de semana ao lado das pessoas que você curte. Ele também está responsável diretamente sobre a minha escolha de escrever jogos de RPG, pois com o Dungeons & Dragons eu encontrei uma comunidade de pessoas apaixonadas. Eu morava em um município do meu estado. E por lá são poucas pessoas que eu tinha para conversar sobre o assunto e com a chegada da internet eu fui apresentado a um imenso grupo de pessoas.
  • Marcelo Cassaro, J.M Trevisan e o Rogério Saladino: Eu tenho muito apreço por estas três pessoas, porque o meu primeiro contato com RPG foi com o jogo 3D&T e o cenário de Tormenta. E eu entendi o quanto era possível também fazer jogos como eles e ter livros. Quando participei de eventos do hobbie, eu compreendi o quanto era valioso sentimentalmente na minha vida ter uma mesa e vários livros de minha autoria ali sendo expostos. Então isso me encorajou de tal forma que eu mexeu drasticamente com todas as decisões da minha vida e não me arrependo delas.
Tomo a liberdade de modificar a pergunta elaborando-as da seguinte maneira:

  • Vocês já imaginaram como seria o mundo se Shigeru Miyamoto não fosse bem sucedido como game designer?
  • Vocês já imaginaram como seria o mundo se Gary Gygax não fosse bem sucedido como game designer?
  • Vocês já imaginaram como seria o mundo se Marcelo Cassaro, J.M Trevisan e Rogério Saladino não fosse bem sucedido como game designer?

Certamente o mundo seria extremamente diferente. Eu não teria conhecido centenas de pessoas das quais tenho amizade. Os momentos únicos e incríveis que passei ao longo da vida em viagens fora do meu estado jamais aconteceriam. Ter a oportunidade de mostrar o quanto eu sou bom em alguma coisa e se reconhecido também não aconteceria da mesma maneira. Não encontrar a oportunidade de descobrir algo que ama e deseja fazer para o resto da vida cedo. Não ter me divertido de forma tão singular com estas obras. Talvez, eu nunca pensaria em escrever jogos.

Você que já jogou alguns jogos destas pessoas das quais citei? Já imaginou como seria o mundo se todas estas pessoas fracassassem na sua área e decidirem optar por outra profissão? Então reflita muito sobre isso. E todos os dias antes de dormir eu sempre penso: Será que eu fui bem sucedido no meu dia? Porque todas as vezes em que a resposta é não, eu continuo trabalhando até o meu corpo sinalizar que realmente preciso descansar. E uma das melhores noites que já tive é ter a certeza que estou caminhando para ser bem sucedido. Isso quer dizer: Pensar em uma nova ideia de jogo, participar de algum evento, escrever páginas de rascunhos dos jogos, realizar playtests, receber encomendas de jogos das outras pessoas, jogar os jogos de outras pessoas e os meus, observar a opinião pública positiva sobre os jogos, saber alguém está também caminhando pelo mesmo objetivo que o meu, entender que existem pessoas que torcem pelo meu sucesso e estão dispostas a me ajudar.

Então por trás do projeto, do dinheiro, do orgulho de ser algo, de tudo isso e mais um tanto de percalços existe um ser humano. Uma pessoa que deseja passar um dia de cada vez bem até completar a sua passagem em vida. E sei que eu preciso continuar a fazer o que eu quero. Eu tenho ainda a oportunidade de ter meus pais vivos, até sou grato por isso, mas todos os dias eu luto para contradizer o que meu pai sempre disse: "Jogo não dá futuro".

E dói muito, às vezes, eu choro do nada, porque saber que o seu pai, a pessoa que mora com você praticamente 1/3 da sua vida inteira, que te criou para o mundo não aceitar a sua escolha é muito frustrante. Muito mesmo, e é uma dor quase imperdoável. E uso essa minha dor para ser a minha luta. E tenho a certeza que o meu pai sabe disso e se sente muito frustrado. E basta olhar na minha página sobre quem eu sou e o que eu fiz, para vocês entenderem que jogo está condicionando um futuro na minha vida.

Então quando eu lanço um jogo ou no caso agora um projeto de financiamento coletivo, eu tenho inúmeras justificativas para não lançar o projeto. Pois só a possibilidade de falha, me faz relembrar todas as pessoas (inclusive o meu pai) que torcem pelo meu fracasso. E eu estou cansado de falhar na minha vida. Sendo muito sincero, eu não quero mais falhar e nem tenho tempo sobrando para isto. E acredito que ninguém em sã consciência gostaria de falhar, eu quero que as pessoas consigam realizar o que querem de forma responsável. Porque eu acredito que já falhei por tempo suficiente para algumas recompensas chegarem. A minha mãe até já me disse: "Filho a sua hora ainda vai chegar." E eu respondi para ela: "E se quando a minha hora chegar, eu não estiver mais vivo? Então o que significa fazer todo este esforço?" Eu não peço nada mais que uma contribuição para que meu sonho possa acontecer. Eu ajudei a realizar sonhos de tantas pessoas que deram certo e não pedi nada de troca, nem um simples "muito obrigado". Porque agora estas pessoas ou outras pessoas não tem a sensibilidade em me ajudar? Será que eu sou tão insignificante na vida? Será que realmente eu não faço a menor diferença na comunidade do meu meio ou na vida de alguém? Então tudo que eu fiz desde 2006 pra cá foi apenas uma fantasia criada na minha cabeça? Será que o meu pai estava realmente certo quando disse que jogo não dava futuro?

E se realmente todas estas questões forem verdadeiras. Só me resta a depressão e aceitar que desperdicei mais de 10 anos na minha vida. E que amar uma profissão da qual deseja trilhar, necessariamente não quer dizer que será bem sucedido na vida. Você pode ter lido tudo isso e ainda não continuar se importando com a minha causa e não vejo problema algum nisso. Mas se se importou então peço para que ajude a realizar o projeto do jogo Veridiana. Qualquer contribuição acima de R$ 10,00 ajuda bastante. Sei que tem muitas pessoas me auxiliando pelo Twitter e nossa, como eu queria dar um abraço muito apertado em vocês, de coração.


Então pode acontecer que em algum futuro próximo, se eu for bem sucedido como game designer, as pessoas possam se identificar de várias formas: Primeiro por ser uma pessoa da cidade do interior com talento artístico a conseguir realizar seu sonhos. Segundo, alguém que abandonou o seu emprego para criar jogos e conseguiu ter grana para financiar projetos. Terceiro, contradizer toda a aura negativa familiar e provando o quanto sou forte o suficiente para não se importar.

Forte abraço.

1 comentários

  1. Cara, só hoje fui encontrar este post e acho que tenho algumas coisas a dizer que possam dar um novo alento a você.

    Eu por exemplo só fiquei sabendo que o financiamento do Veridiana já tinha rolado porque o Leandro Pugliesi veio me perguntar sobre o jogo, com o financiamento rolando. A maior e mais importante parte do FC acontece é antes da publicação, não durante. Hoje em dia não anda tão difícil sincronizar blogs especializados e os posts da galera, mas você precisa avisar todo mundo meses antes para que a divulgação orgânica tenha tempo de acontecer. Esse jogo é bom! (apesar de que eu gosto mais do formato folha dobrável dele...)

    Mas sobre estar perdendo tempo da sua vida... cara, a história é muito populada por artistas fracassados. O que a gente faz é arte, não é comercial, e é uma escolha que a gente fez. Se for pra fazer algo comercial a gente estava lançando expansão de D&D, e olha que nem D&D ainda vende como vendia. Mas cara, você esgotou em menos de seis meses os Cachorros Samurais da primeira edição e sei que ainda estão procurando pelo jogo. Como isso não é sucesso? Sucesso comercial não tem NENHUM jogo no Brasil. Nem Tormenta, nem Old Dragon. O que mantém eles no mercado é a resiliência das pessoas que estão por trás, que insistem nos jogos, vão e nos eventos, promovem material para trazer novos jogadores... é um trabalho constante, chato, e que não dá margem ou tempo pra gente se sentir mal. Tô custando pra fazer isso enfrentando essa depressãozinha que tá comigo já há mais de um ano e só eu sei o quanto isso me prejudica e o quanto eu poderia estar muito melhor hoje no mercado. Mas temos que aprender a lidar com isso... (eu ainda não aprendi, mas não desisto também)

    Agora segue a lista que amo de algumas pessoas que me inspiram a nunca desistir:
    Stan Lee: Criou seu primeiro personagem de sucesso (Homem Aranha) só aos 40 anos.
    Christoph Waltz: Passou a vida fazendo séries de pouco sucesso na TV e só aos 52 anos estrelou Inglorious Basterds e explodiu.
    Shigeru Miyamoto tinha mais de 30 anos quando fez o Donkey Kong, e estava na Nintendo desde os 25; Gary Gygax já tava no rolê há anos e produzia vários fanzines de sucesso limitado, e D&D só saiu quando ele já tinha 33... calma, cara. Ainda há tempo.

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